Os primeiros pelos no rosto cultivei sem razões ideológicas. Um bigode ralinho, feio até. Planos adolescentes. Aumentar a idade, que ainda não chegara aos 16, e diminuir a dificuldade de acesso ao cinema ou aos bailezinhos naqueles anos em que tudo parece proibido para quem não chegou aos 18. Com o tempo, alguns fatores contribuíram para que a barba passasse a fazer parte da minha aparência, do meu jeito de ser: a pele, que irritava demais a cada passeio do barbeador pelo rosto, uma homenagem estética a homens que moldaram o meu pensamento e, vá lá, que nem tudo é nobre ou político: a possibilidade um pouco maior que eu imaginara ter, a partir dela, de me aproximar de gente mais interessante.
Não tenho claro se a minha barba me aproximou de gente mais interessante ou se meus interesses é que me deixavam, naqueles anos, mais próximos de uma geração anterior, já preocupada com os destinos do mundo e, claro, também outras bobagens fundamentais. O fato é que o menino se tornou homem com ela no rosto, com o quadro de Che na parede e a certeza de que o importante era lutar para mudar o mundo. O tempo passou e já era impossível dissociar até a auto-imagem daquela barba espessa, outrora toda negra, ultimamente cinza em demasia.
O tempo passou. O quadro de Che seguiu na parede. Outras pautas foram se apresentando na vida do menino, que nunca se deixou levar pela ideia de que a história acabou. Na profissão, na vida, nas escolhas, continuou se pautando pelos ideais do adolescente que um dia resolveu ser barbudo. Quantas polêmicas colecionou, travando o que considerava ser o bom combate. Nas pretinhas da máquina de escrever ou do teclado do computador, sempre que pôde deixou claro sua posição, seu lado. Disputou eleições menos pela possibilidade de vitória e mais pela chance de ter no palanque um momento para colocar certas coisas para a Velha Cidade ouvir.
Mais tarde, mais velho, barba ganhando o tom cinza, com o microfone em punho, já no rádio, pôde exercitar novos argumentos, se preocupar com outras questões, não menos importantes. Se dedicar a temas cotidianos, a sempre que pudesse rebater um preconceito, uma intolerância, ainda que de maneira mais tímida e calma que nos verborrágicos discursos das praças, das ruas. Talvez até tenha sido mais escutado assim, mais respeitado assim e, com certeza, mais compreendido assim.
Mas o menino envelheceu. O radical que queria mudar o mundo, se rendia na vida particular. Se amarrava a sonhos que não sonhava, a projetos que não eram seus. O menino errou. As vésperas da meia idade, o menino descobria que se mutilara desde sempre. Um dia, antes de ir dormir, acordou e resolveu que não seria mais assim. Na verdade, já resolvera. Só resolveu contar para o mundo. Ia doer, ser complicado, tenso, mas ele precisava voltar a viver. E assim fez.
O menino sabe, no entanto, que sua mutilação não puniu só a si próprio. Machucou quem não tinha nada com isso, é verdade. Mas navegar é preciso, já disse o poeta português. Por mais machucado que saia desta, o menino não vai voltar atrás. O menino renasceu. E se já não tem certeza que pode mudar o mundo, vai seguir mudando o seu mundo. E a barba, companheira da rebeldia, estética de uma visão de mundo, já não lhe servia. Cinza, triste, escondia o seu sorriso, os traços de quem quer buscar o novo, voltar a sonhar enquanto é tempo. Se ela, um dia, reverberava o radical, ultimamente dava o tom do resignado.
A barba caiu. Viva a barba. O menino está vivo. Viva o menino.
2 comentários:
Muito maneiro...Não sabia do seu blog...parabéns vc tem o dom das palavras...PH
Bacana demais meu amigo...
eu continuo aqui com minha barbicha cinza quase branca..
ela já faz parte do meu rosto..
mudamos, com certeza..
bom renascimento
Postar um comentário