16.8.11

A barba caiu. Viva a barba


Os primeiros pelos no rosto cultivei sem razões ideológicas. Um bigode ralinho, feio até. Planos adolescentes. Aumentar a idade, que ainda não chegara aos 16, e diminuir a dificuldade de acesso ao cinema ou aos bailezinhos naqueles anos em que tudo parece proibido para quem não chegou aos 18. Com o tempo, alguns fatores contribuíram para que a barba passasse a fazer parte da minha aparência, do meu jeito de ser: a pele, que irritava demais a cada passeio do barbeador pelo rosto,  uma homenagem estética a homens que moldaram o meu pensamento e, vá lá, que nem tudo é nobre ou político: a possibilidade um pouco maior  que eu imaginara ter, a partir dela, de me aproximar de gente mais interessante.
Não tenho claro se a minha barba me aproximou de gente mais interessante ou se meus interesses é que me deixavam, naqueles anos, mais próximos de uma geração anterior, já preocupada com os destinos do mundo e, claro, também outras bobagens fundamentais. O fato é que o menino se tornou homem com ela no rosto, com o quadro de Che na parede e a certeza de que o importante era lutar para mudar o mundo. O tempo passou e já era impossível dissociar até a auto-imagem daquela barba espessa, outrora toda negra, ultimamente cinza em demasia.
O tempo passou. O quadro de Che seguiu na parede. Outras pautas foram se apresentando na vida do menino, que nunca se deixou levar pela ideia de que a história acabou. Na profissão, na vida, nas escolhas, continuou se pautando pelos ideais do adolescente que um dia resolveu ser barbudo. Quantas polêmicas colecionou, travando o que considerava ser o bom combate. Nas pretinhas da máquina de escrever ou do teclado do computador, sempre que pôde deixou claro sua posição, seu lado. Disputou eleições menos pela possibilidade de vitória e mais pela chance de ter no palanque um momento para colocar certas coisas para a Velha Cidade ouvir.
 Mais tarde, mais velho, barba ganhando o tom cinza, com o microfone em punho, já no rádio, pôde exercitar novos argumentos, se preocupar com outras questões, não menos importantes. Se dedicar a temas cotidianos, a sempre que pudesse rebater um preconceito, uma intolerância, ainda que de maneira mais tímida e calma que nos verborrágicos discursos das praças, das ruas. Talvez até tenha sido mais escutado assim, mais respeitado assim e, com certeza, mais compreendido assim.
Mas o menino envelheceu. O radical que queria mudar o mundo, se rendia na vida particular. Se amarrava a sonhos que não sonhava, a projetos que não eram seus. O menino errou. As vésperas da meia idade, o menino descobria que se mutilara desde sempre. Um dia, antes de ir dormir, acordou e resolveu que não seria mais assim. Na verdade, já resolvera. Só resolveu contar para o mundo. Ia doer, ser complicado, tenso, mas ele precisava voltar a viver. E assim fez.
O menino sabe, no entanto, que sua mutilação não puniu só a si próprio. Machucou quem não tinha nada com isso, é verdade. Mas navegar é preciso, já disse o poeta português. Por mais machucado que saia desta, o menino não vai voltar atrás. O menino renasceu. E se já não tem certeza que pode mudar o mundo, vai seguir mudando o seu mundo. E a barba, companheira da rebeldia, estética de uma visão de mundo, já não lhe servia. Cinza, triste, escondia o seu sorriso, os traços de quem quer buscar o novo, voltar a sonhar enquanto é tempo. Se ela, um dia, reverberava o radical, ultimamente dava o tom do resignado.
A barba caiu. Viva a barba. O menino está vivo. Viva o menino.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito maneiro...Não sabia do seu blog...parabéns vc tem o dom das palavras...PH

ANIMAÇÕES disse...

Bacana demais meu amigo...
eu continuo aqui com minha barbicha cinza quase branca..
ela já faz parte do meu rosto..
mudamos, com certeza..
bom renascimento